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Jornal DIÁRIO DO NORDESTE
Domingo - 13-02-2000
Fortaleza - Ceará - Brasil
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Barreiras dificultam vida do deficiente visual


Em todo o Estado existe apenas um semáforo com sinal sonoro

    Se já não bastasse a dura realidade, muitos dos direitos de cidadania ainda são negados aos portadores de deficiência visual. Para se ter uma idéia, no Estado do Ceará apenas o semáforo da Avenida Bezerra de Menezes, esquina com a Rua Padre Anchieta, possui um sinal sonoro. Os bancos, só com muita insistência e um bom argumento, permitem a abertura de contas para eles, com emissão de talão de cheque e cartão de crédito. Emprego é outro problema. Embora a Lei n 8213/91obrigue órgãos públicos e particulares a contratarem, acima de 100 funcionários, 2% de portadores de algum tipo de deficiência, na prática ela não é cumprida. O passe livre nos transportes coletivos e a educação são outras lutas antigas.

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Muitos dos direitos de cidadania são negados aos portadores de deficiência visual. Um bom exemplo é o fato de, em todo Estado, existir apenas um semáforo com sinal sonoro. No caso dos bancos, somente com muita insistência eles permitem abertura de contas e a procura por emprego fica cada vez mais difícil

    O desrespeito dos motoristas com os pedestres tem se tornado gritante. Eles avançam sinal, param em cima da faixa, fecham cruzamentos, estacionam em cima das calçadas e, muitas vezes, saem de suas garagens e até estabelecimentos comerciais sem querer saber se tem alguém passando. Para as pessoas com visão normal esses exemplos são gritantes, então o que imaginar daqueles que precisam usar a intuição para tomar decisões e, numa eventualidade, esta pode vir a ser fatal. No caso específico dos deficientes visuais, nem mesmo o único sinal sonoro lhes garante total tranqüilidade na hora de atravessar a Avenida Bezerra de Menezes.

    Larissa Proença viveu na pele a sensação de quase ser atropelada por um carro que saía de uma revendedora de carros, na Avenida Bezerra de Menezes. Ela contou que estava levando sua filha Marcela, de 11 anos, para o Instituto dos Cegos Dr. Hélio Góes Ferreira. Trajeto esse que ela está acostumada a fazer diariamente e que, devido à indisciplina dos muitos motoristas, já pensa em elaborar um abaixo-assinado. “Os carros estão ocupando o lugar dos pedestres na calçada”, denuncia ela. Outro problema, principalmente para os deficientes visuais, como é o caso da filha dela, são as cestas de lixo que ficam no alto. “Essas barreiras aéreas não são alcançadas pela bengala”, revolta-se.

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    No caso dos bancos, o Banco do Brasil não aceita que um deficiente visual movimente sua própria conta, como faz uma pessoa de visão normal. Segundo o assessor de Comunicação da agência Aldeota, Clebernardo Rodrigues Bezerra, o banco exige uma procuração pública para que o deficiente possa assinar algum documento. No entanto, ele não pode ter talão de cheque em seu nome e nem cartão de crédito. Dos 5% das vagas destinadas aos deficientes em geral, no último concurso público do Banco do Brasil, nenhuma foi preenchida por um deficiente visual. Clebernardo acredita que para o serviço bancário eles não são úteis.

    No próximo dia 17, às 15 horas, na Procuradoria Geral do Trabalho, o procurador José Antônio Parente da Silva participará de uma audiência com representantes da Sociedade de Assistência aos Cegos e demais entidades ligadas aos portadores de deficiência em geral. O objetivo é debater a inserção dos deficientes no mercado de trabalho, tendo em vista que muitos deles são capacitados e não são aproveitados como manda a lei. Na relação de empresas que em seu quadro de profissionais contam com a mão-de-obra de deficientes, estão Verdes Mares AM, Telemar, IJF, Embratel, Hemoce e Casa Civil.O transporte coletivo tem se mostrado outro problema para os deficientes visuais. Consciente da carência e da necessidade dos muitos portadores, a empresa Vitória é a única que permite o passe livre deles. Para tanto, é feito um cadastro anualmente e distribuídas carteiras que dão acesso gratuito às linhas dessa empresa.

Prazer em aprender

    Formada no Magistério, Vanesca Fernandes Batista fez especialização na Sociedade de Assistência aos Cegos e, há dois anos, ensina no 1 Ciclo do Ensino Fundamental. Cada sala de aula comporta, no máximo, oito alunos, entre portadores de deficiência visual, videntes e de visão subnormal. O ensino vai até o 5 Ciclo, cujas vagas ainda estão abertas. Até o momento foram matriculados 150 alunos, divididos nos turnos da manhã e tarde.

    Jarmilene Almeida Franco, de apenas sete anos de idade, tem a visão normal e este ano foi matriculada no Instituto dos Cegos Dr. Hélio Góes Ferreira.

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    A irmã Patrícia, portadora de deficiência visual, deixou o Instituto no ano passado. Ela contou que está gostando da turma da sala de aula e sente prazer em fazer os deveres dados pela professora Vanesca. As lições são aplicadas tanto em braille (para os deficientes visuais), em letras maiores (para as crianças de visão subnormal), como regular (para crianças como Jarmilene).

Profissional dedicado

    Evandro Duarte, de apenas 25 anos de idade, começou a perder a visão aos cinco. Essa barreira crescente não o impediu de viver cada fase de sua vida. Cursou até o 4 Ciclo do Ensino Fundamental no Instituto dos Cegos Dr. Hélio Góes Ferreira, depois, em São Paulo, conclui o Ensino Médio (supletivo). Na Capital cearense procurou fazer curso de massagem, profissão que até hoje vem se dedicando com afinco, inclusive com atendimento em domicílio.

    A duração da massagem, conforme ele, pode chegar até 45 minutos. O cliente pode escolher a massagem local, geral, terapêutica, estética e relax. Às segundas e quartas-feiras, Evandro atende no consultório montado na Sociedade de Assistência aos Cegos, na Bezerra de Menezes. Os demais dias deixa para atendimento no próprio domicílio.

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    A independência por completo é algo que Evandro diz ainda buscar. Apesar de fazer tudo sozinho, ele reside com os pais no bairro Passaré. “Poucos sabem da existência da Lei do Mutirão, onde 5% das casas devem ser destinadas aos portadores de deficiência”, comenta ele.

Brigando por seus direitos

    Casado também com uma portadora de deficiência visual (funcionária pública), Francisco Ferreira da Silva, 47 anos de idade, exerce a função de Programador na Telemar, há 20 anos. Ele é um dos exemplos que não se contentou com um não, quando fazia sua inscrição para preencher as vagas oferecidas, na época, pela Teleceará. Batalhador pelos seus direitos, ele conseguiu abrir conta e até fazer a própria movimentação nos bancos Bec e Bradesco.

    O programador Francisco nasceu com atrofia no nervo ótico, tendo a visão perfeita até os 10 anos de idade. Os problemas, não nega, são muitos. Porém, o preconceito é o maior deles. “As pessoas nos encaram como deficientes e nos colocam num patamar bastante inferior. É muito comum que queiram tomar decisões por nós, sem sequer perguntar qual as nossas necessidades e o que realmente queremos”, indigna-se ele. Quanto aos políticos, lamenta, eles também decidem mudanças sem a prévia consulta dos que serão “beneficiados”.

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    A familiarização com o local é algo que o deixa mais seguro. Os elevadores, finaliza ele, já deveriam ter sinalizadores em braille.

Cardápio em braille

    Presente no Brasil há 21 anos, a rede de restaurantes McDonald's é a única que possui cardápio também em braille. O lançamento aconteceu no dia 13 de dezembro de 1989, Dia Nacional do Cego.

    Os cardápios foram desenvolvidos pelo Instituto Benjamin Constant, em película de PVC (o mesmo material usado na impressão de itens de apoio didático), e apresentam toda a linha de produtos do McDonald's. Eles são fixados na parede dos restaurantes, em local próximo ao balcão.

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    A iniciativa de adotar cardápios especiais para portadores de deficiência visual, faz parte da política do McDonald's de apoiar os grupos que enfrentam dificuldades devido a qualquer tipo de deficiência.

    Essa filosofia já determinou anteriormente a implantação de rampas e banheiros adaptados a portadores de deficiências físicas e o apoio para realização de eventos voltados para deficientes mentais.

    Vinculado ao Ministério da Educação (MEC), o Instituto Benjamin Constant foi fundado em 1854 e funciona no Rio de Janeiro. É a mais antiga entidade dedicada à educação de cegos no Brasil.

Mercado de trabalho

Empresas Número de Empregos

Função

IJF 08 Auxiliar de Radiologia
Embratel 02 Telefonista
Telemar 02 Programador
Prefeitura Municipal de Caucaia 01 Auxiliar Administrativo
Clínica de Radiologia Beroaldo Jurema 01 Auxiliar de Radiologia
Tribunal de Justiça do Ceará 02 Telefonista
Banco do Nordeste 01 Telefonista
Secretaria de Administração do Estado 02 Auxiliar Administrativo
Secretaria de Educação do Estado 04 Professor
Secretaria de Educação do Município 02 Professor
Hemoce 01 Telefonista
Hospital da Polícia Militar 03 Massagista
SAC 04 Telefonista
SAC 01 Professor de DOSVOX
SAC 01 Revisor de Textos em Braille
SAC 01 Monitor de Empalhamento
SAC 01 Monitor de Bijuteria
SAC 01 Monitor de Tapeçaria
SAC 01 Monitor de Oficina de Bengala
SAC 01 Monitor de Massagem
SAC 01 Monitor de Áudio-Locução
SAC 01 Monitor de Câmera Escura
INSS 01 Arquivista
Sine 01 Auxiliar Administrativo
Hospital César Cals 01 Telefonista
Hospital São José 02 Telefonista
Hospital de Messejana 02 Telefonista
Unimed 02 Auxiliar de Radiologia
Hospital do Conjunto Ceará 01 Telefonista
Casa Militar 01 Auxiliar de Secretária
Verdes Mares AM 01 Locutor
O Povo 01 Operador de Telemarketing
AM do O Povo 01 Locutor
Rádio Caiçara 01 Locutor
Rádio Maior (Baturité) 01 Locutor
Rádio Comunitária (Conj. Palmeira) 01 Locutor

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